Capa do livro A Abadia de Northanger

A Abadia de Northanger

Jane Austen

L&PM Pocket175 páginas

    Catherine Morland, dezessete anos, coração puro, é uma mocinha ingênua, viciada em livros repletos de desventuras horripilantes e amores trágicos. Sabendo sobre a vida apenas o que leu nos romances, ela sai de seu obscuro vilarejo natal para passar uma temporada em Bath, estação balneária frequentada pela aristocracia inglesa, onde conhece bailes excitantes, uma amiga amabilíssima, um cavalheiro encantador e outro insuportável. E sai de Bath para ser hóspede, como num sonho, de uma abadia. A antiga construção, porém, revelará sinais misteriosos, indícios de que foi cenário, no passado, de um crime medonho. Exatamente como ela lera nos livros...

    Resenha: A Abadia de Northanger, de Jane Austen

    Em A Abadia de Northanger, Jane Austen coloca uma leitora voraz de romances góticos diante de uma pergunta deliciosa: o que acontece quando a imaginação, alimentada por castelos sombrios, crimes ocultos e heroínas perseguidas, tenta interpretar a vida comum como se ela também obedecesse às regras de um folhetim assustador?

    Catherine Morland é uma protagonista especialmente cativante porque não começa a história com a segurança espirituosa que muitos associam às heroínas de Austen. Aos dezessete anos, ela é inexperiente, impressionável e apaixonada pelos livros que lê. Sua viagem de um vilarejo discreto à movimentada Bath, seguida da estadia numa antiga abadia, abre espaço para que seu olhar transforme encontros sociais, paixões nascentes e corredores antigos em matéria de fantasia.

    A grande graça do romance está no atrito entre essas fantasias e a realidade. Austen não despreza o gosto de Catherine pelos enredos macabros; pelo contrário, parece compreender perfeitamente o prazer de se entregar a uma narrativa cheia de segredos. Mas também examina, com sua ironia característica, os riscos de confundir a vida com uma ficção pronta, em que toda porta fechada esconde um crime e toda pessoa antipática é necessariamente um monstro.

    É uma sátira ao romance gótico, mas não uma paródia fria. O livro preserva o encanto do mistério — afinal, a própria ideia de uma abadia desperta expectativas — enquanto desloca o foco para as pequenas tensões sociais: a vaidade, as aparências, os jogos de interesse e as primeiras decepções de quem ainda está aprendendo a ler as pessoas. Nisso, A Abadia de Northanger é também uma história de formação: Catherine precisa descobrir que maturidade não significa abandonar a imaginação, mas aprender a equilibrá-la com discernimento.

    Há algo muito moderno na maneira como Austen aborda a influência das histórias sobre quem as consome. Catherine não é ridicularizada apenas por ser ingênua; sua sensibilidade também revela uma fome legítima por aventura, afeto e significado. O romance pergunta, com leveza e perspicácia, até onde os livros nos ajudam a compreender o mundo — e a partir de que momento eles podem nos fazer enxergar demais onde talvez haja apenas banalidade.

    Escrito originalmente no fim da década de 1790 sob o título Susan, o romance só foi publicado postumamente, em dezembro de 1817, junto com Persuasão. Essa proximidade com os primeiros trabalhos de Austen ajuda a explicar uma energia mais brincalhona e direta, sem que falte a observação social afiada que consagraria a autora inglesa. (janeaustens.house)

    Quem espera um suspense gótico tradicional pode estranhar a ausência de horrores efetivos; quem aceita o convite para rir das convenções do gênero encontrará uma obra espirituosa, inteligente e afetuosa com o próprio ato de ler.

    Recomendado para leitores que gostam de Jane Austen, de romances góticos e de histórias que tratam a imaginação com humor, mas também com respeito.