
A Ponte de Clay
Editora Intrinseca651 páginas
Mais de uma década após o sucesso de A menina que roubava livros, Markus Zusak traça a saga de uma família em busca de redenção Se em A menina que roubava livros é a morte quem conta a história, em O construtor de pontes, novo romance de Markus Zusak, presente e passado se fundem na voz de outro narrador igualmente potente: Matthew, o filho mais velho da família Dunbar. Sentado na cozinha de casa diante de uma máquina de escrever antiga, ele precisa nos contar sobre um dos seus quatro irmãos, Clay. Tudo aconteceu com ele. Todos mudaram por causa dele. Anos antes, os cinco garotos haviam sido abandonados pelo pai sem qualquer explicação. No entanto, em uma tarde ensolarada e abafada o patriarca retorna com um pedido inusitado: precisa de ajuda para construir uma ponte. Escorraçado pelos jovens e por Aquiles, a mula de estimação da família, o homem vai embora novamente, mas deixa seu endereço num pedaço de papel. Acontece que havia um traidor entre eles: Clay. É Clay, então, quem parte para a cidade do pai, e os dois, juntos, se dedicam ao projeto mais ambicioso e grandioso de suas vidas: uma ponte feita de pedras e também de lembranças — lembranças da mãe, do pai, dos irmãos e dele mesmo, do garoto que foi um dia, antes de tudo mudar. O tempo, assim como o rio sob a ponte, tem uma força avassaladora, capaz de destruir, mas também de construir novos caminhos. O construtor de pontes narra a jornada de uma família marcada pela culpa e pela morte. Com uma linguagem poética e inventiva, Markus Zusak nos presenteia mais uma vez com uma história inesquecível, uma trama arrebatadora sobre o amor e o perdão em tempos de caos.
O construtor de pontes, de Markus Zusak
Em O construtor de pontes, a ponte não é apenas o projeto que reúne Clay Dunbar e o pai que abandonou a família: ela é a imagem central de uma tentativa quase desesperada de atravessar o que ficou quebrado entre cinco irmãos, suas memórias e uma ausência que nunca deixou de pesar.
Markus Zusak, autor australiano também conhecido por A menina que roubava livros e Eu sou o mensageiro, publicou o original Bridge of Clay em 2018, depois de mais de uma década da repercussão internacional de seu romance mais famoso. (markuszusak.com) Mas é importante não entrar aqui esperando uma repetição da fórmula anterior. Se a Morte narrava A menina que roubava livros, agora quem toma a palavra é Matthew, o irmão mais velho, diante de uma máquina de escrever e de uma necessidade íntima de reconstruir a história de Clay.
Essa escolha de narrador sugere uma das forças do livro: os acontecimentos não chegam ao leitor como uma linha reta e limpa, mas como lembrança — parcial, afetiva, insistente. Presente e passado se misturam porque, para os Dunbar, o passado não está propriamente encerrado. Ele reaparece nos gestos, nas culpas, nos silêncios e, principalmente, na volta do pai com seu pedido improvável.
A sinopse promete uma narrativa de grandes sentimentos, e Zusak parece interessado menos em oferecer respostas rápidas do que em observar como cada personagem suporta o peso da perda. Clay, apontado como o “traidor” pelos irmãos por aceitar ajudar o pai, ocupa uma posição especialmente delicada: sua decisão pode ser lida como ruptura, mas também como uma tentativa de compreender aquilo que os outros prefeririam rejeitar. É nesse atrito entre ressentimento e desejo de reparação que o romance encontra seu coração.
A linguagem poética e inventiva, marca associada ao autor, combina com uma história que transforma matéria concreta em símbolo. Pedras, rio, ponte, máquina de escrever: tudo carrega a possibilidade de permanência e de ruína. Ao mesmo tempo, essa ambição pode exigir entrega do leitor. Não parece ser um livro interessado na objetividade de uma trama acelerada; seu apelo está na cadência das lembranças e na intensidade emocional com que encara o luto, a culpa e o perdão.
O vínculo entre os irmãos também impede que a narrativa se resuma à reconciliação entre pai e filho. A família Dunbar surge como um organismo ferido, cheio de lealdades contraditórias, humor, raiva e amor. Até a presença de Aquiles, a mula de estimação que rejeita o patriarca, reforça o tom peculiar da história: em Zusak, a dor pode ser profundamente séria sem deixar de conviver com o estranho e o cotidiano.
O construtor de pontes é recomendado para quem aprecia dramas familiares de fôlego, narrados com lirismo, e está disposto a percorrer uma história que encontra na fragilidade dos laços humanos sua matéria mais poderosa.